Do porto à lenda: uma breve história do tango
O tango nasceu no final do século XIX nos cortiços e bairros portuários de Buenos Aires, onde conviviam imigrantes italianos, espanhóis, crioulos e afro-argentinos. Dessa mistura surgiu uma dança e uma música carregadas de nostalgia, ironia e desafio. Nos anos 20 e 30 o gênero foi refinado pelas grandes orquestras típicas e encontrou em Carlos Gardel, conhecido como o Zorzal Criollo, sua voz mais universal: ele gravou centenas de músicas e estrelou filmes que levaram o tango a Paris e Nova York antes de morrer em um acidente aéreo em 1935. Hoje o tango é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, título recebido em 2009.
Milongas de verdade: códigos e cabeceo
Uma milonga não é um show, é um salão onde os portenhos dançam para si mesmos, seguindo regras não escritas que vale a pena conhecer. O cabeceo é a forma tradicional de convidar para dançar: faz-se contato visual a partir da mesa e, se há interesse, a outra pessoa acena com a cabeça; ninguém convida em voz alta nem atravessa o salão. As tandas, grupos de três ou quatro músicas do mesmo estilo, são separadas por uma cortina musical, momento de agradecer ao par e voltar para a mesa.
- La Viruta (Armenia 1366, Palermo): milonga jovem e descontraída, com aula incluída antes da pista abrir, entrada a partir de ARS 3.000-4.000, aberta de quinta a domingo até de madrugada.
- Salón Canning (Av. Scalabrini Ortiz 1331, Palermo): uma das milongas mais respeitadas pelos dançarinos locais, ambiente mais formal, entrada em torno de ARS 4.000-6.000.
Shows para turistas: Rojo Tango e El Querandí
Se você prefere assistir a um espetáculo profissional em vez de dançar, Buenos Aires oferece shows de alto nível com jantar incluído. O Rojo Tango, dentro do Faena Hotel, é a opção mais exclusiva da cidade, com figurinos de Giorgio Armani e preços a partir de USD 180-220 por pessoa com jantar. O El Querandí, no bairro de Monserrat, combina um show mais histórico e teatral com menu portenho a partir de USD 90-120. Os dois exigem reserva antecipada, principalmente na alta temporada, de novembro a março.
Tango grátis na rua: San Telmo e Caminito
Não é preciso gastar nada para ver um bom tango. Aos domingos, a feira de San Telmo se enche de casais de dançarinos de rua entre a Defensa e a Plaza Dorrego, com o chapéu como único ingresso. No Caminito, em La Boca, as casinhas coloridas servem de cenário para dançarinos que posam e se apresentam para os turistas: é um clássico para fotos, mas vale cuidar bem dos pertences nessa área.
Aprender a dançar: aulas, museu e fileteado
Muitas milongas oferecem aula para iniciantes antes de abrir a pista, geralmente uma hora antes, incluída na entrada ou por cerca de ARS 2.000 à parte. Escolas como DNI Tango ou La Catedral também dão aulas avulsas para viajantes sem par. Para entender de onde vem tudo isso, a Casa Museo Carlos Gardel (Jean Jaurès 735, Abasto) guarda objetos pessoais do cantor na que foi sua casa. O mesmo bairro é o berço do fileteado porteño, a arte decorativa de letras e volutas que você verá em placas, ônibus e fachadas, também reconhecida pela UNESCO em 2015.
Futebol, a outra religião: Boca, River e lunfardo
Se o tango é a alma, o futebol é o coração de Buenos Aires. Ver o Boca Juniors na La Bombonera, no bairro de La Boca, ou o River Plate no Monumental, em Núñez, é uma experiência sensorial única. Para ir com segurança, compre ingressos oficiais com antecedência, nunca na porta do estádio, considere uma agência especializada em turismo de futebol se for seu primeiro jogo, evite camisas do time rival e se desloque de carro particular ou Uber porta a porta antes e depois da partida. Aproveite também para prestar atenção ao lunfardo, a gíria portenha nascida junto com o tango: palavras como laburo (trabalho), mina (mulher) ou quilombo (bagunça) seguem vivas nas ruas todos os dias.